Cinema nacional e seu círculo vicioso

Recebi hoje da minha amiga Giovi um texto de Luis Felipe Pondé, da Folha Ilustrada, se perguntando por que o nosso cinema não consegue fazer filmes como os dos argentinos. Tudo isso porque Pondé assistiu ao Segredos dos seus olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.

Eu não assisti ao filme, mas sou fã de O filho da noiva que é do mesmo diretor, Juan José Campanella e tenho que concordar em gênero, número e grau com Pondé.


Vejamos algumas de suas observações:

“nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente” (...) “algumas obsessões de conteúdo travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco.”

Bom, o filósofo estudou na USP, sabe perfeitamente como funcionam alguns dos centros acadêmicos de lá. Só não acho que eles queiram mudar o mundo, só acho que o jovem estudante de hoje é na verdade um jovem político. Afinal, nunca vi o CAEL da Faculdade de Letras entrar nas salas para falar de trabalho voluntário, de apoio a alguma ONG, ou tentar buscar recursos para a faculdade que não fossem políticos.

Já a obsessão de conteúdo é mais uma fase do cinema nacional. Passamos pelo Pornochanchada, pela era da Xuxa e os Trapalhões e agora estamos na era da violência, temas nordestinos, sociais e idolatria a Glauber Rocha. Para Pondé o culto exagerado a Glauber é um grade problema:

“Se ele foi "revolucionário" em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de "cinema novo" sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado.”

Acredito que para época Glauber Rocha foi revolucionário e não sou contra os atuais temas, mas o cinema brasileiro precisa passar desse ponto, ir mais além que as questões sócias e políticas, ser mais que uma extensão da Rede Globo. Falta ao nosso cinema e até mesmo a nossa televisão, roteiros ousados, diferentes e profundos.

Digo tudo isso não porque não gosto do cinema nacional, gosto e assisto a quase todos (em breve assistirei, para o desapontamento de alguns, Nosso Lar), mas sim porque não sou extremamente pessimista, creio sinceramente que temos talentos para sermos iguais ou até melhores que nossos amigos argentinos. Apenas precisamos nos reinventar, tratar de outros assuntos e deixar "Foucault, Glauber e Bourdieu 'dormirem' um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo. "

O texto de Luis Felipe Pondé está disponível apenas para assinantes Uol, mas a Folha de São Paulo disponibiliza o podcast da matéria.

Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Concordo com tudo que vc disse. Parabéns pelo texto!

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Amanhã na Globo vai passar um filme que representa outra vertente do cinema nacional (que não a da miséria): a dos filmes globais, com atores exclusivamente globais, enredo de novela ou seriado global, piadinhas globais e, finalmente, bilheteria global.

O filme a que me refiro é "Se eu fosse você".

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Perfeito Giovi, vertente extensão Rede Globo!

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