E o Oscar FOI para...

Apesar do frisson causado anualmente pelo Oscar, sua relevância é quase que sistematicamente contestada. Aqueles que torcem o nariz para a premiação dizem que ela não passa de uma celebração nostálgica, na qual os membros da Academia relembram um tempo bom que não volta nunca mais, em que ir ao cinema era praticamente o único tipo de entretenimento e a sétima arte não precisava concorrer com TV e Internet. No entanto, a relevância da premiação é mais do que comprovada, e não sou eu quem está dizendo, são os números.

Estima-se que a inclusão de uma produção na lista dos finalistas pode gerar US$ 5 milhões a mais na bilheteria. A vitória, então, proporciona US$ 12 milhões. Isso só no mercado norte-americano. Este ano, vimos um bom exemplo dessa relevância quando Guerra ao Terror, que no Brasil havia sido lançado diretamente em DVD, foi para seu devido lugar nas salas de cinema após as nove indicações aos prêmios da Academia.

De olho na audiência – que nos EUA sofreu uma pequena queda de 2% no ano passado – a cerimônia de premiação passou por uma reformulação como não se via há muito tempo. Tivemos neste ano dez indicados à categoria de Melhor Filme, o que não acontecia desde 1943; dois apresentadores dividiram o palco, a última vez em que mais de um anfitrião apresentou a festa foi em 1958, quando Bob Hope, David Niven, Tony Randall, Mort Sahl, Laurence Olivier e Jerry Lewis entretiveram a plateia.

As piadas de Alec Baldwin e Steve Martin, aliás, garantiram o humor e aliviaram as quatro horas de duração da cerimônia, não é por acaso que eles são recordistas de apresentação do tradicional programa de humor americano Saturday Night Live. Além de Baldwin e Martin, Ben Stiller também provocou risadas ao se caracterizar como um Avatar para entregar o prêmio de Melhor Maquiagem. Stiller, junto com Sasha Baron Cohen, também foi cogitado como apresentador da cerimônia, mas os produtores descartaram a ideia devido ao possível teor “apelativo” das piadas. Este último, por exemplo, se vestiria como uma Avatar engravidada por James Cameron.

                             

Outra mudança ocorrida este ano, para a alegria de uns e tristeza de outros, foi a ausência de números musicais para apresentar os indicados a Melhor Canção. Embora eu ache que o Oscar já nos rendeu memoráveis performances musicais (o site da Billboard lista algumas: www.billboard.com), confesso que de uns tempos pra cá essa tem se tornado uma parte dispensável da premiação. Talvez para compensar essa ausência, a 82ª cerimônia abriu com um número musical de Neil Patrick Harris, satirizando sua presença constante como apresentador de várias premiações americanas no ano de 2009. Também houve um belíssimo número de dança para apresentar os indicados à Melhor Trilha Sonora.

Na minha opinião, o momento mais emocionante da cerimônia foi a homenagem ao diretor, produtor e roteirista John Hughes, morto de ataque cardíaco no ano passado, aos 59 anos. Homem por trás de clássicos que marcaram época (pra não dizer a minha vida) como Curtindo a Vida Adoidado (1986), A Garota de Rosa Shocking (1986) e Esqueceram de Mim (1990), Hughes recebeu a homenagem de atores que praticamente devem suas carreiras a ele, como Matthew Broderick, Molly Ringwald e Macaulay Culkin. Também foi interessante a homenagem aos filmes de terror, gênero que raramente cai no gosto dos membros da Academia.

                         

                                                    John Hughes

Falando um pouco dos prêmios, acho incrível como o Oscar ainda consegue surpreender mesmo após as premiações que o antecedem, como o Globo de Ouro e as premiações dos sindicatos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro que foi para O Segredo de Seus Olhos, dos nossos hermanos da Argentina, desbancando o favoritismo do alemão A Fita Branca. Na entrega dos prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz, repetiu-se o feito do ano passado em que cinco celebridades apresentavam os indicados, no entanto, se no ano passado estes eram apresentados por antigos vencedores da categoria, em 2010, eles foram apresentados por seus amigos e parceiros de produção, o que deixou os discursos mais espontâneos e pessoais. Nessas categorias não houve muita surpresa, com prêmios para Jeff Bridges e Sandra Bullock.

A 82ª edição dos prêmios da Academia fez história mesmo foi com a categoria de Melhor Direção, com o prêmio dado merecidamente para Kathryn Bigelow. Às vésperas do dia Internacional da Mulher, ela foi a primeira mulher a vencer tal categoria. O seu Guerra ao Terror foi o grande vencedor da noite, com seis prêmios, incluindo Melhor Filme, deixando Avatar, de seu ex-marido James Cameron, comendo poeira com apenas três prêmios dos nove que havia sido indicado. É interessante que o filme com a menor bilheteria dentre as produções que já venceram a categoria de Melhor Filme, conseguiu ganhar do maior recordista de bilheteria de todos os tempos. Porém, é fato que daqui a dez anos ainda estaremos falando de Avatar e já teremos esquecido Guerra ao Terror.

Abaixo a lista completa de vencedores:

Melhor Filme: Guerra ao Terror

Melhor Direção: Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror

Melhor Ator: Jeff Bridges, Coração Louco

Melhor Atriz: Sandra Bullock, Um Sonho Possível

Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz, Bastardos Inglórios

Melhor Atriz Coadjuvante: Mo’Nique, Preciosa

Melhor Animação: Up – Altas Aventuras

Melhor Roteiro original: Guerra ao Terror

Melhor Roteiro Adaptado: Preciosa

Melhor Filme Estrangeiro: O Segredo de Seus Olhos, Argentina

Melhor Direção de Arte: Avatar

Melhor Fotografia: Avatar

Melhor Figurino: A Jovem Victória

Melhor Edição: Guerra ao Terror

Melhor Maquiagem: Star Trek

Melhor Trilha Sonora: Up – Altas Aventuras

Melhor Canção: The Weary Kind, Coração Louco

Melhor Documentário de Longa-Metragem: A Enseada

Melhor Documentário de Curta-Metragem: Music by Prudence

Melhor Curta-Metragem de Animação: Logorama

Melhor Curta-Metragem: The New Tenants

Melhor Edição de Som: Guerra ao Terror

Melhor Mixagem de Som: Guerra ao Terror

Melhores Efeitos Visuais: Avatar


Vinicius Martins

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Achei os dois músicais extremamente chatos!
Quanto a Guerra ao terror, não acho que os prêmios tenham sido merecidos. Não por causa do Avatar, mas o filme é um clichê, lugar comum nos filmes americanos. Sem nenhuma originalidade. Puxa vida filme de guerra! De novo! Concordo que o Oscar tem que começar a premiar filmes de baixa produção e neste caso a premiação do Guerra ao terro foi um ponto positivo, uma evolução. Mas a industria está precisando de originalidade,de inovação! Não tecnológicas, pq dessa o cinema está cheio, mas de enredos inovadores! Oscar não é caridade, pra ficar premiando os fracos e oprimidos. O prêmio de melhor filme foi meramente político.....

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Como assisti pela TV aberta, muito do que vc descreveu, Vini, só fiquei sabendo agora.
Gostei da homenagem aos filmes de terror (mas o que "Crepúsculo" fazia lá??) e da sátira que Martin e Baldwin fizeram ao "Atividade paranormal".
Acho que os prêmios foram merecidos, apesar de não ter visto "Guerra ao Terror". Não seria justo que "Avatar" ganhasse.
Por que não colocaram a Farrah Fawcett na homenagem a quem se foi? Só porque era da TV? Ela deve ter feito filme também, e mais que o Michael.

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Pq foi justo Guerra ao terror ganhar o Oscar?

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Nossa Giovi, é verdade, não havia notado a ausência de Farrah Fawcett, falha deles. Concordo com a Michele que há um excesso de filmes de Guerra, mas acho que Guerra ao Terror consegue retratar a Guerra no Iraque como nenhum filme conseguiu até agora. Contudo, descordo da vitória desse filme na categoria Melhor Roteiro Original, que acho que deveria ter ido para Bastardos Inglórios.

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O Oscar nunca esteve tão bom! Guerra ao Terror levou o merecido prêmio de Melhor Filme e a ex de Cameron teve sua noite de glória. A crítica acusa Kathryn Bigelow de exaltar a presença de tropas americanas no Iraque, mas quem viu o filme sabe que a crítica ali é outra. Não se trata de mais um filme de guerra. A diretora está interessada em falar sobre as guerras modernas como produtoras de homens-máquinas, que deixam o que construíram para trás e ficam à espera de mais uma dose de adrenalina. A tese é mostrar como a guerra é uma droga e como ela vicia. Não estamos falando de um patriota (o protagonista do filme, curiosamente com o sobrenome James) que está no campo de batalha pelo o amor ao país acima de tudo. Mas, sim, de um homem que precisa estar lá, precisa arriscar sua vida, para continuar vivendo. O filme é excelente e mereceu todos os prêmios que conquistou até agora. O concorrente Avatar é perfumaria unida a um roteiro épico-clichê. Quem viu sabe que a dimensão 3D é metade da graça.

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Guerra ao terror é um bom filme? Sim. Avatar é um clichê? Sim. Mas, embora não exalte o patriotismo, não tem como negar que o prêmio de melhor filme para Guerra ao terror foi um prêmio político. Mostrar que a guerra é uma droga, que é um vicio, que o protagonista precisa estar lá etc, já foi tratado em diversos filmes de guerra que não exaltam o patriotismo americano, principalmente em revolta ao Bush. Guerra ao terror, por ter tido menor orçamento, foi muito bem feito, mas ganhar o prêmio de melhor filme com Bastardos Inglórios concorrendo foi a mesma coisa que dizer que a Meryl Streep é melhor que a minha musa Sandra Bullock, mas por caridade....

PS: minha singela opinião

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Bastardos Inglórios é um filmaço, sem dúvida, mas Guerra ao Terror conseguiu o que poucos filmes de ação conseguem: transformar o tema da guerra em uma discussão complexa sobre a consciência de um soldado. É mais do que uma questão política, é uma questão universal. E feito com baixo orçamento, sem a embalagem azul de uma Pandora mítica e colonizada, é algo que não pode ser ignorado.

Não assisti ao filme que deu o Oscar para Sandra Bullock, mas parece ser de fato algo tocante. Não há dúvidas de que Meryl Streep é uma atriz excelente e que merece diversos prêmios, mas acho certo a Academia premiar também quem se destaca por uma atuação primorosa. Sandra Bullock é uma atriz versátil, capaz de fazer comédia romântica e drama. Não era minha preferida das indicadas, mas teve seu trabalho reconhecido.

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Amo a Sandra Bullock!!! Tb não assisti ao filme, mas pelo que li, parece muito com Erick Brockovich. E sem dúvida ela muito versátil, espero que agora ela possa trabalhar em outros gêneros.

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