Conto-Faísca

Carlos havia acabado de sair da casa de Ana, sua namorada, estava tenso, nervoso, com raiva e principalmente com vergonha. Será que ela tem razão? Perguntava-se constantemente enquanto caminhava pelas ruas. Como ela podia ter dito coisas tão horríveis a ele? Como ela podia ter tido a coragem de chamá-lo daquele nome? Aquilo era tão comum na vida de tantos casais, ou assim pensava que era. Não, claro que é, já vi várias vezes na televisão homens falarem sobre isso sem a menor culpa e sem o menor preconceito.
Não, não deveria ter proposto isso a ela, mas eu a amo, porque agora estou duvidando?
Não era a primeira vez que Carlos duvidava do seu amor por Ana, ás vezes o sexo não era muito bom e ele ficava se perguntando se a culpa era dele ou dela. Sentia uma vontade estranha no seu corpo, uma vontade que não conseguia explicar. Será que ela tem razão? Perguntava-se novamente Carlos. Acho que não, definitivamente não, eu não sou assim, ela é que é muito conservadora. Já tinha ouvido falar de muitos homens que faziam a mesma coisa durante o sexo e não necessariamente eram gays. Podia confirmar com alguns de seus amigos, mas a vergonha era maior do que a sua curiosidade. Não, não sou gay, vou provar isso a ela, um cinto não pode abalar a minha sexualidade, vou ligar pra ela. Parou em frente a um orelhão, havia esquecido o celular na casa de Ana, e olhou diretamente para um anúncio grudado rudemente no aparelho telefônico: “Loiro alto, gostoso, musculoso. Tenho 25 anos, ativo com muita experiência.” E logo abaixo o telefone. Não era a primeira vez que Carlos observava esses anúncios, achava-os muito divertidos e sentia uma leve curiosidade em saber se diziam a verdade. Loiro, gostoso, musculoso, será? Sem pensar muito resolveu ligar e depois de três toques alguém do outro lado da linha atendeu. O Homem tinha uma voz grossa e cansada e perguntou com certa rispidez quem era. Imediatamente Carlos desligou o telefone, não sabia o que dizer. Ficou um tempo parado observando o anuncio, é idiotice pensar nisso, é melhor ligar para Ana. Mas o número que discou não foi o dela:

- Alô? Quem é?

- Eu.... eu.... que...que....queria falar com a... a.... a.... a... pessoa do anuncio – completou rapidamente Carlos

- Ah, sim o anúncio, é ela mesma. Olha, o valor é 100 uma noite inteira, completa e não adianta pedir que não faço sem camisinha.

-Mas....mas... eu só queria conversar e.....

-O preço não muda, é 100 reais mesmo assim.

Carlos desligou. Isso é loucura, pra que estou ligando? Isso tudo é culpa da Ana que fica falando barbaridades pra mim que é até eu mesmo fiquei confuso. Saiu do orelhão e resolveu caminhar um pouco pela rua. A cada casal que passava Carlos se perguntava se acontecia o mesmo com eles, porém a cada homem que via, pensava se seria gay. Olhou para o relógio, 11:30 da noite, as ruas do centro estavam começando a ficar cheias novamente, como se uma festa estivesse para acontecer. Então, parado no farol, Carlos olhou para o outro lado da rua e teve a visão de uma linda mulher, perfeita, a mais perfeita que já havia visto; os cabelos pretos lisos até os quadris, e que quadris, e que pernas, meu Deus! Ao atravessar a rua Carlos continuou encarando a moça e quando já estavam lado a lado, escutou-a dizer com uma voz um pouco grossa para uma mulher:
-Oi gato, estou livre essa noite.

Carlos não sabia o que dizer, continuou olhando-a com cara de surpresa, ela tinha um sorriso lindo, dentes brancos e perfeitos. Então pensou que aquilo seria uma peça do destino, engraçado e irônico, já que ela realmente serviria para ele de consolo.

Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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