Televisão - O Grande Irmão: O ditador que elimina aquele que foge às regras

     Todo mundo sabe que a idéia do nome do reality show Big Brother saiu de um dos meus livros preferidos: 1984 de George Orwell. Na ficção, o Grande Irmão era um ditador que vigiava tudo e a todos, em todos os momentos. Sua presença se fazia constante e ninguém estava livre de sua atenção, nem mesmo os seus subordinados. Sexo, lazer, necessidades físicas e biológicas, enfim, nada se passava despercebido do grande ditador, que era onipotente e onipresente.

     No entanto, o reality e o livro não têm em comum apenas o nome. Assim como em l984, os participantes dos diversos programas espalhados pelo mundo precisam agradar o seu Grande Irmão. Caso contrário, serão eliminados e cairão no esquecimento. No livro aquele que não se adapta aos valores e opiniões do ditador é morto e extinguido, sendo tratado como se nunca houvesse existido. No entanto, a idéia é de que o magnífico líder político nunca mata ninguém, o indivíduo é que nunca existiu. Mas uma vez a realidade imita a ficção e nós a cada terça-feira exorcizamos o nosso pequeno ditador adormecido.

     O fato é que muitas vezes, nós telespectadores, não enxergamos o nosso ditador. Ora, não é eliminado o participante que desagrada? E quem desagrada? Pelo senso comum, aquele, assim como no caso do livro, foge às regras. Estas que são demarcadas por valores tidos como éticos, morais e sociais. Certa vez, a ex-participante do BBB10, Tessália, disse a seguinte frase para seu “namorado” Michel: “Eu não fui politicamente correta aqui”. Verdade, não foi mesmo, por isso se tornou a meu ver uma participante, no mínimo, interessante. Pregar valores morais é muito fácil, o difícil mesmo é cumpri-los. Mas o Grande Irmão não perdoa e elimina qualquer transgressor, seja homem ou mulher, mas de preferência mulher. Tessália foi eliminada nesta com 78% dos votos. Um número alto, indicativa de rejeição.

     Para ser sincera, não gostava dela. Não pelo fato do suposto sexo feito na casa ou pela sua forma de manipular. Isso até me agradava. O que eu não gostava mesmo era do seu deboche. Tessália era debochada e achava que eu, telespectadora não percebia sua arrogância ou sentimento de superioridade, bem explicado pela conversa dela com Bial. Ser rebelde, sem cair no clichê é muito difícil em um jogo tão repetitivo, mas ela estava conseguindo. Não queria que ela saísse, porque BBB sem Tessália é como assistir a uma novela do Manoel Carlos! Sem vilões e sem mocinhos. Não odeio os vilões, gosto deles, quem não gosta do Coringa ou do Lex Luthor? São eles que fazem nossos heróis. A verdade é que matamos o protagonista de 1984 antes de terminarmos o livro. Tessália é humana e se arriscou a ser rebelde, por isso tiro para ela o meu chapéu.

     Agora sem a grande vilã, temos que ficar assistindo uma tentativa frustrada da Lia de querer ser a grande protagonista desse jogo. Pior do que isso é agüentar a falsa santa Fernanda. E ela nos engana? Não, não engana, mas grande parte das mulheres a aceitam, simplesmente porque é a Amélia que é mulher de verdade! Tanto é que muitas não suportam a rebeldia de Lenita, que de Amélia não tem nada.

     Outra coincidência é que na ficção aqueles que se encaixavam demais nas regras, submissos e por isso mesmo, bitolados, também eram eliminados. Os santinhos e as samambaias de plantão não agradavam o sistema, o Grande Irmão desconfiava daqueles que tinham muito pudor. Nesta edição do BBB10, a samambaia do Uiliam também teve o mesmo destino.

     O fato é que ninguém sabe ao certo o que fazer para ganhar o jogo. O livro não dá dicas e cada vencedor do programa desenhou uma história diferente. Muitos dizem que o carisma é essencial, mas carisma é algo bem subjetivo e depende muito de como olhamos o indivíduo. Os limites entre transgredir as regras aceitas pelo senso comum e não cair na mesmice não são bem delimitados. Acredito que um bom jogador deve ter um excelente jogo de cintura, pois qualquer movimento brusco e ele será queimado na fogueira das vaidades.


Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Muito bom o texto, Mi. Não assisto ao BBB10, mas, como vi as edições antigas, continuo gostando do Dourado. Apesar de a primeira coisa a chamar a atenção nele ser o corpo 'sarado', ele tem carisma e diz coisas que todos nós gostaríamos de dizer. É um cara do bem. Espero que o público continue a aprová-lo. Bjo

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Estamos na torcida por mais um MG!

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