O sangue mais próximo

Estava tudo lá, exatamente como ontem: o sofá fora do lugar, a televisão quebrada, a estante derrubada, cacos de vidro espalhados pelo chão. Marcas inegáveis de um extremo desgosto, mas não de luta, pois não há luta quando só um duela. Elisa foi recolher os cacos, não os seus, pois esses ela já havia desistido há muito de tentar reunir, mas aqueles que estavam no chão; não queria que Joana machucasse os pés. Ao pegar o lixo com a pá, vislumbrou rapidamente o reflexo do seu rosto. No entanto, a cara inchada e roxa não mostrava o tamanho de sua dor.

Joana a espiava por uma pequena brecha da porta de seu quarto e Elisa sabia que ela estava ali, mas não queria consolá-la, não tinha mais coragem de dizer à filha que estava tudo bem, que iria passar e que aquilo nunca mais aconteceria. Joana não iria acreditar, talvez nunca tivesse acreditado na mãe, talvez também achasse, como todos os outros, que lhe faltava coragem e que esta talvez nunca fosse aparecer. Entretanto, Elisa já não mentia mais para si mesma, sabia que jamais conseguiria fugir e que, se conseguisse, não iria muito longe. Ele a acharia, em qualquer lugar, e ela tinha certeza que ninguém no mundo poderia impedi-la de se render novamente aos seus caprichos.

Apesar do senso comum, Elisa sabia que nem todas as mulheres, em sua situação, conseguiriam escapar de tais danos. Talvez Joana um dia entendesse; só desejava imensamente que não tivesse de passar por aquilo, que fosse forte e inteligente para não cair em tal armadilha. Essa era provavelmente a pior armadilha do destino, a mais injusta, pois, em troca de amor, afeto e dedicação, Elisa havia ganhado socos, pontapés, dominação e ingratidão. Quanta ingratidão! Ela não merecia, afinal, o que tinha feito de mal? Apenas o amara! Talvez tivesse errado em dar dinheiro, em lhe dar um carro, casa, comida e roupa lavada. Mas o que poderia ter feito? Ela o amava e teria feito tudo de novo para tê-lo com ela. Apesar da dor da primeira briga, da primeira pancada, Elisa sabia que aquilo era só o começo, sabia que não conseguiria mandá-lo embora. Jamais! Mesmo que argumentasse, mesmo que pedisse, sabia que ele iria repetir o feito, de novo, de novo e de novo. A briga de ontem era só a primeira da semana; logo, ele voltaria, com mimos, abraços e, por mais que tentasse ignorá-lo, cedo ou tarde se renderia a ele. No entanto, no primeiro pedido negado, o amor – sim, porque ela sabia que ele a amava – viraria ódio, raiva e violência.

Enquanto a mãe pensava e arrumava a desordem, Joana continuava a olhar, sabia que logo ele voltaria. Dito e feito. Daquela vez o espaço de tempo havia sido menor, ele devia ter gastado tudo na noite anterior. Ela tinha de fazer algo, porque aquilo não poderia continuar; mas será que teria mais coragem do que a mãe?

A briga recomeçara. Desta vez, mais intensa e mais penosa:

- Eu não tenho, tudo que tinha te dei ontem! Você já gastou tudo com aquelas vagabundas!

- E se eu tiver gastado? E daí? O que você vai fazer? Vai chamar a polícia?

- Vou, dessa vez eu vou!

- Quem você está querendo enganar? Eu sei que no quarto da Joana tem dinheiro.

- Não se atreva! Não se atreva a entrar no quarto dela!

Mas ele não lhe deu ouvidos. Abriu a porta com um pontapé e viu Joana ainda de pijamas sentada na cama, com as mãos nos ouvidos, em uma tentativa ingênua de abafar a gritaria.
- Sai já do meu quarto!
- Não seja idiota, garota. Vou pegar um pouquinho do seu dinheirinho e sair. Você não precisa dele mesmo!

Dirigindo-se à única cômoda do lado da cama e em frente à janela, abriu a gaveta.
Rapidamente, insensata e insanamente, Joana agiu. Sabia que era a sua única chance, porque aquilo tinha que parar! E, sem pensar, se jogou, com todo impulso que pôde, contra o rapaz à sua frente, um sujeito baixo e magro. Mas o que Joana não suspeitava era que fosse perder o equilíbrio. Em menos de um minuto, assistindo à cena horrorizada, Elisa viu os seus dois únicos filhos caindo pela janela. Não adiantava olhar, era inútil, inútil! Ninguém sobreviveria a uma queda do vigésimo quarto andar. Percorreu os olhos pelo quarto e viu as fotos dos dois em um mural na parede: abraçados, da mesma forma como morreram.


Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Este conto é muito bom, Mi. Parabéns!

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interessante do princípio ao fim surpreendente! Fantástico, adorei.

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