Um banho de verão



O conto abaixo foi baseado em fatos reais, quem quiser saber mais da história é só entrar no Fofocas de Marte.

Um banho de verão

Que dia quente! Minha mãe sempre me dizia que antigamente as estações do ano respeitavam seus dias. Não sei como era antes, só sei que deveria ser outono e parecia que estávamos em pleno verão.

Como se não bastasse o calor, há dias que não era possível dormir direito. Desde que começaram as obras o barulho era insuportável! A casa parecia não ter mais dono; era um entre e sai irritante. Sem contar a bagunça! Não havia mais nenhum canto da casa arrumado. Privacidade então, zero!

Mas precisava de espaço, precisava descansar, precisava de um lugar refrescante, para conseguir aguentar o calor infernal! Sorte a minha saber que o banheiro era um lugar com privacidade, um ambiente mais frio e distante dos barulhos. O banheiro sempre foi o meu melhor esconderijo, era como se lá eu fosse o rei do pedaço, ninguém para me importunar, um lugar calmo, tranqüilo, geladinho ou assim pensava que fosse.

Vinte minutos. Só isso. Foi esse o tempo que consegui me afastar das pessoas para poder pensar um pouco na minha solidão. Um silêncio total dentro do banheiro. De repente o barulho estava maior e em seguida menor. Olho para frente e lá está ela. Nua. Completamente nua. Pior, me encarava. Pensei que fosse gritar! Pareceu que passou uma eternidade até que ela desistiu de me encarar e se afastou.

Achei que o calor estava me afetando, tanto que pensei que estava alucinando. Algo até comum na minha família. No entanto, não era loucura, pois ela ainda estava lá, tomando banho, aumentando ainda mais o calor. Eu deveria ter saído, fugido, corrido, pedido ajuda, sei lá. Só sei que não conseguia me mexer, só conseguia olhá-la. Olhar para aqueles olhos grandes, negros, bonitos. Os cabelos não eram muito longos, mas juntamente com suas curvas me paralisavam. Precisava sair daquele banheiro, precisava correr, o calor estava cada vez mais insuportável. Mas lá estava ela me encarando como se dissesse: “não saia, fique comigo, me faça companhia”.

E eu fiquei. O calor começou a me sufocar, já respirava com dificuldade, estava envolvido em um grande estupor. Iria morrer, com toda certeza. Ela era o anjo da morte, veio me matar, acabar com a minha vida inútil, miserável e solitária. Sabia disso, mas ainda assim não conseguia tirar os olhos daquela mulher. Momentos depois o banho acabou, ela passou diante de mim, como se também estivesse atraída pela minha presença, parecia não ter notado que mal estava respirando com todo aquele calor. O ar me faltava. Por um momento pensei que poderia ficar livre de sua presença, que ela iria embora da mesma maneira que apareceu, do nada. Porém, novamente me enganei, ela não iria embora, não sem antes de terminar o serviço. Ao menos conseguiu acabou com a minha agonia, terminando de me sufocar com uma toalha, jogando-a com leveza em cima de mim, como alguém displicente que deixa a toalha cair no chão.

Eu sei, deveria ter corrido, deveria ter feito alguma coisa, mas já estava fraco demais, sufocado e sem forças para fazer qualquer coisa, só conseguia me lembrar da voz da minha mãe me dizendo: cuidado meu filho, nós, lagartixas, podemos ter uma vida muito curta, principalmente se não tivermos cuidado por onde andamos.

Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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