Infeliz desejo


Andando pelas ruas, José não enxergava as pessoas que passavam. Na verdade, não queria enxergá-las. Andava rápido sem olhar pelas lojas, precisava chegar logo em casa sem cair em tentação. Na última vez que se descontrolou, passou duas semanas se sentindo culpado. Nunca havia passado tanto tempo com a culpa em sua consciência; geralmente, ela aparecia no instante seguinte ao ato e ia embora no máximo duas ou três horas depois. Tempo suficiente para começar a desejar de novo. No entanto, havia prometido a si mesmo que tentaria se controlar, não queria correr nenhum risco.

O desejo era algo que parecia incontrolável para José. Por que não conseguia ver, admirar e ir embora? Sabia que a compulsão era uma doença, mas se recusava a ir a um lugar em que as pessoas, provavelmente, falariam de compulsão por roupas, por mentir, etc. Algo tão banal comparado aos problemas dele. Nenhuma delas se sentia tão culpada quanto ele. Era condenado pela sociedade e sabia muito bem disso.

A primeira vez que não conseguiu resistir se sentiu tão completo que achava aquilo a coisa mais natural do mundo. Entretanto, em pouco tempo, descobriu que não era bem assim; conseguia se lembrar perfeitamente do rosto das pessoas olhando para ele.

“Mas como eu poderia resistir a algo tão bom, com todo aquele perfume! Não podia ser algo proibido. Deus jamais me condenaria por não resistir! Tudo na terra era concebido por Ele. Não, eu fui feito pra aquilo, esse era o meu destino!”.

Toda vez que saía, acontecia isso: um duelo entre o que podia e o que não podia. Como se houvesse uma voz, um diabinho, dizendo: “Vai em frente, não tenha medo e nem vergonha!” José já havia comentado isso com sua mãe, que o levou imediatamente ao pastor de sua igreja. Óbvio que no dia seguinte, depois da “expulsão do demônio”, o desejo voltou a aparecer e, por incrível que pareça mais forte. Assim, por conta de sua fraqueza, passou a ficar em casa, enjaulado, pois, dentro de quatro paredes, sua mãe podia ajudá-lo a resistir.

Enquanto pensava, já parado no ponto do ônibus, uma linda mulher se aproximou e parou esperando seu ônibus. Claro que ele a olhou de baixo para cima, afinal, ele era humano. A moça era jovem, cabelos loiros, ondulados, olhos verdes. Vestia uma calça bem justa, salientando o formato de suas belas nádegas. Na parte de cima, uma blusa preta com um enorme decote chamando a atenção de todos. Se esticasse um pouco mais poderia até apalpá-la, poderia até fazer mais, poderia chegar ao local que queria. No entanto, não o fez; ficou parado apenas sentindo o maravilhoso cheiro, tentando resistir ao desejo que vinha daquele aroma. Não aguentando mais, José a agarrou com toda a sua força e tirou o seu objeto de cobiça: um hambúrguer. Imediatamente se esqueceu de todas as suas promessas e saiu correndo rua abaixo, abocanhando o hambúrguer em grandes pedaços. Se sentindo livre e completo mais uma vez.

Michele Lima



Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Comentários
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MIchele, muito bom. Divertido e inteligente, emocionante do princípio ao fim. Eu não conseguia parar de ler pq precisava saber o que ele queria tanto assim. bjs

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Que bom que gostou Mamis! Adoro escrever contos assim rsrsrsrsrs. Bjs

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