Ânsia

Quatro anos de faculdade e agora isso! - Pensou Diana em frente ao computador. Não havia passado um ano inteiro estudando para o vestibular e depois mais quatro anos de dedicação na faculdade de História, para trabalhar fora de sua área!

O primeiro ano depois de formada foi muito mais fácil de aguentar, ela mesma dizia que era comum uma recém-formada não encontrar emprego. No segundo ano, Diana repetia a mesma frase, mas já um pouco incomodada com as entrevistas frustradas. Era sempre a mesma coisa: “Seu currículo é excelente, pena que você não possui experiência”. Já no terceiro ano de desemprego, o desespero a dominou por completo, já estava aceitando trabalhar quase que de graça, mas ainda assim, não conseguia um emprego.

Diana tinha o sonho de ser professora de história, por isso, foi uma das poucas alunas de sua turma que não reclamou do estágio, muito menos por ser em escola pública. A experiência, ainda que assustadora a princípio, havia sido bastante positiva: nota 10 em metodologia do ensino de história.

Por tudo de bom que a faculdade lhe havia proporcionado, Diana estava esperançosa em seu primeiro ano de recém-formada. No entanto, no quarto ano, o desespero era tão grande que aceitou trabalhar fora de sua área, em uma função burocrática. Um ano depois, a desesperança não só aumentou como também surgiu a frustração e a depressão. A princípio, pensou que fosse gastrite, sabia que os enjôos não seriam por conta de uma gravidez. Porém, segundo seu médico, as dores musculares e os enjôos eram sintomas de uma possível depressão.

Cada vez que lhe pediam alguma coisa, sentia vontade de vomitar e a ânsia só aumentava quando os chefes lhe sorriam ao agradecer. Quando olhava o salário, o ódio só aumentava. “Os energúmenos não sabem fazer nada sozinhos e ainda ganham o dobro!”. A situação piorava ainda mais quando os chefes lhe pediam para fazer algum trabalho bem fácil, acreditando que assim seu humor iria melhorar. O cretino acreditava que ao dar a Diana um serviço tolo, ela ficaria feliz, mas na verdade só aumentava seu desespero. “Qualquer aluno do ensino fundamental poderia fazer aquilo!”. Sentia sua inteligência subestimada. Não conseguia acreditar que as pessoas pudessem passar a vida inteira fazendo um trabalho que não exigisse nem 1% do cérebro!

Pensando nisso e sentindo mais um enjôo, ouviu seu telefone tocar. Era seu chefe, na sala ao lado, chamando-a para entrar. Por que será que não podiam se levantar para fazer nada?!

- Senhorita Santos, sente-se, por favor. – disse seu chefe, com seu sorriso bestial.

“Tomara que eu seja despedida”

- Diana, devido ao seu desempenho aqui no escritório, meu sócio e eu resolvemos lhe dar uma promoção! Agora você receberá 20% a mais de seu salário!

- 20% a mais? Mas isso quer dizer que terei que trabalhar por mais horas?

- Claro que não, assim não seria uma promoção! Apenas queremos que continue fazendo seu trabalho e vamos te dar mais alguns serviços aqui do escritório. Você tem talento, precisamos aproveitar isso! Aposto que está feliz.

- Ah sim, muito mesmo. Obrigada. Senhor, precisa de mim para mais alguma coisa?

- Não, pode ir.

Assim que se retirou da sala, Diana correu para o banheiro e, finalmente, a ânsia resultou em um belo vômito.

Michele Lima


Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Comentários
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Dooona Micheeeele...
Como não tinha super interessante eu coloquei no que tinha mesmo! Adoreeeeei, na verdade e achei suuuuper tudo!!! Desde já leitora assídua!!!
Já separei os meus contos para a publicação. Mas, já estou pensando em reduzir, porque nem todos acho tão legais assim para publicar. Podíamos trocar figurinhas, né?!?!
Beijooosss!!!

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