A vizinha


Flor era uma mulher solteira com 30 anos, independente, livre, desimpedida e por mais que as pessoas a considerassem solitária, ela se considerava feliz. Não é que não tivesse ninguém, tinha um namorado e duas sobrinhas que eram como filhas. Aliás, Flor sempre achou que ser tia era melhor do que ser mãe, porque como tia só tinha o lado bom da coisa!. Os sobrinhos sempre a amariam e nunca ficariam revoltados com ela.

Se, para alguns, Flor era solitária, para outros, Flor era infeliz e que por isso vivia brigando com os outros. Ora, ela não brigava com ninguém, eram os outros que nunca gostavam de ouvir umas verdades! Verdade. Palavra da vida de Flor! Amigos, pais, parentes todos temiam as verdades de Flor, pois justamente por serem verdades magoavam. Faltava a Flor um certo bom senso, que depois da tragédia ocorrida com sua vizinha, ela entendeu que a verdade também podia matar.

Claúdia, uma senhora gordinha de 70 anos vivia com seu gato no apartamento ao lado de Flor e gostava muito de pintar; o problema é que pobre senhora não sabia pintar nem uma flor, com o perdão do trocadilho, mas insistia em tentar vender seus quadros.

Certo dia, toda feliz, Claúdia resolveu pendurar uns quadros no corredor dos apartamentos, bem ao lado da porta de Flor, que prontamente reprovou a atitude da senhora, indo imediatamente comunicar o fato ao síndico do prédio. Os corredores tinham uma decoração padrão, aqueles quadros horríveis não poderiam ficar lá.

Depois de cinco tentativas frustradas de resolver o assunto com o síndico, Flor já não aguentando mais ver seus amigos rirem dos quadros ao lado de sua porta, tomou a iniciativa e foi resolver o assunto com a vizinha.

Resultado: a verdade mata! Não, a senhora não teve um ataque do coração, mas tinha depressão. Flor levava uma vida tão corrida que nunca sequer trocou uma palavra coma pobre vizinha e nunca soube que Cláudia vivia só, sem ninguém da família por perto. Não casou, não teve filhos e boa parte de seus amigos já haviam morrido e quando Flor lançou suas verdades em Cláudia, a pobre mulher percebendo que não prestava nem para pintar, uma vez que Flor disse descaradamente que seus quadros eram feios, achou que sua vida não valia nada. Na mesma noite Cláudia se jogou da janela do sétimo andar, deixando Flor carregada de culpa e sendo obrigada a fazer terapia por muitos anos.


Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Comentários
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"Truth is overated"
Sempre achei isso. Por incrível que pareça, existem coisas muito mais importantes que a vedade, como a compaixão, a boa educação, o amor e até mesmo a própria felicidade, que muitas vezes está tão oposta à verdade quanto a luz está das trevas.

Gostei do seu conto. E pretendo voltar mais vezes aqui no seu cantinho!

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Oi monstrinha! Obrigada pelo cometário! Volte sempre viu!

Bjo

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