No compasso da obsessão




Mica adorava músicas clássicas, principalmente as músicas de Beethoven, já que para ela não existia compositor melhor. Bach, Mozart, todos eram inferiores, simplesmente pelo fato de Beethoven ter feito a nona sinfonia já surdo! Aquilo sim era genialidade, o resto era resto.

Todas as tardes Mica gostava de ler um livro, trabalhadora autônoma podia fazer os horários que quisesse e preferia trabalhar sempre pelas manhã, pois adorava o silêncio do seu apartamento no período da tarde. No entanto, o seu adorável silêncio estava comprometido com a chegada de seu novo vizinho, Felipe.

Felipe era um jovem rapaz estudante de música e apesar de saber tocar vários instrumentos, o piano era o seu favorito. Felipe sabia tocar as composições famosas com alguma habilidade, mas para a sua maior frustração, Felipe tinha sérios problemas na hora de compor, podia tocar qualquer música, mas era fraco na hora de inventar seu próprio som.

Dessa forma, com o novo vizinho, Mica passou a escutar Felipe tocar piano todas as tardes e sempre a mesma música, parecia que o jovem rapaz estava tentando compor algo novo. A princípio, Felipe tocava apenas depois do almoço, mas à medida que sua criativa, que era escassa, parecia crescer, aumentava também as horas em que Felipe ficava ao piano; até que um dia, não agüentando mais, Mica bateu em sua porta:

- Desculpa bater em sua porta a essa hora, mas é justamente por estar tarde que gostaria que você parasse com o piano!

- A senhorita não gosta de música clássica, prefere um funk, aposto.

- Não pelo contrário, adoro música clássica, mas não consigo dormir com esse barulho!

Foi então que Felipe se tocou que realmente já estava muito tarde e notou também que a moça era muito bonita:

- Mil desculpas, eu vou parar imediatamente, mas como recompensa quero que você venha me escutar amanhã, já que você disse que gosta de música clássica.

Mica pensou por um momento, mas algo a impulsionou a aceitar a oferta.

Assim, Mica e Felipe se tornaram amigos e quando Felipe soube que Mica era apaixonada por Beethoven, começou a tocar todas as tardes alguma música do compositor. Mica detestava quando ele fazia isso, Beethoven era Beethoven e Felipe, apesar de habilidoso, não sabia tocá-lo com maestria. No entanto, com o passar do tempo, a amizade se tornou namoro e Felipe deixou de tocar Beethoven para voltar a sua composição. Todos os dias o rapaz ficava em frente ao piano, tentando, tentando, sempre a mesma composição, no mesmo compasso. Mica já não aguentava mais e nem mais adiantava pedir para que ele parasse; Felipe havia ficado obcecado por aquela composição. Obcecada também era Mica, não só por Beethoven, mas também pelo seu adorável silêncio nos períodos da tarde, silêncio que havia perdido desde que Felipe chegara.

A relação já não era mais a mesma e o mesmo sentimento que impulsionou Mica a aceitar a oferta de Felipe para vê-lo tocar a moveu naquele dia em que sedou seu namorado e cortou-lhe os dedos. Dias depois em sua cela, Mica passava as manhãs escutando Beethoven e às tarde aproveitava o silêncio para ler um livro.

Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Meus contos têm finais trágicos, né? Preciso mudar isso!

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Aha,ah,ah,ah,ah,ah,ah,aha,ha,ha,ah,ah,ah,ah,aha,ha,ha,ha,ha,ah,ah,ah,aha,ha, parafraseando Dora de Auto da Compadecida: - Ai que eu adoro um final trágico!!!
Adoreeeeeiiiii o conto, Mi, mas qual foi a parte mesmo que vc lembrou de mim?!?! Ehe,ehe,he,he, fiquei até com medo de saber :D
Aha,ha,ah,ah,aha,ha,ha,ha,ah,ah,aha,ha, mas brilhante mesmo, gosto de contos trágicos e a senhorita até hj não leu o que postei nas minhas notas do FB... :S Estás em débito com minha persona!!!

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Lembrei de vc pq vc gosta de escrever, oras! kkkkkkkkkk

Eu esqueci esse conto! Mil desculpas, vou ler sim!!!

Bjs

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