Pai bonzinho, mãe megera




Quando criança alguém sempre te pergunta se você gosta mais do seu pai ou da sua mãe, minha resposta imediata era “meu pai”! Isso porque meu pai sempre foi uma pessoa calma, tranquila e nunca reclamava, era o pai “bonzinho”, já quando eu entrei na pré-adolescência minha mãe se tornou pra mim uma megera! Não adiantava pedir as coisas para meu pai, a resposta dele sempre era: “pergunta para sua mãe” e a resposta da minha mãe era sempre “não”! Não podia sair para lugares desconhecidos e nem conhecidos se fosse voltar tarde, não podia ficar horas no telefone e namorar nem pensar! Quanto ao meu pai, tudo para ele estava bem!

A adolescência passou e passou bem rápido porque mesmo com idade de adolescente eu já não me comportava como uma. Junto com a adolescência passou também um pouco a imagem de pai “bonzinho” e mãe “megera”, minha mãe era uma ótima mãe, mesmo porque se não fosse por ela eu nunca teria estudado em uma escola particular, na época décima melhor de São Paulo, se não fosse pelo esforço dela eu nunca teria ganhado uma bolsa e para o meu pai, bom, estava sempre tudo ótimo.

De modo geral eu sempre achei que os pais sempre foram um tanto negligentes quanto aos filhos, sempre sobra para a mãe e acho que no meu caso não foi diferente. No entanto, mesmo assim eu amava meu pai, só que quando ele se separou da minha mãe a imagem que eu tinha dele ficou um tanto manchada. Minha mãe sofreu muito e eu com ela, eu já era adulta, mas os filhos mesmo quando não são crianças sofrem com a separação dos pais, ainda que pareça que pela lei filho maior de idade deixa de ser filho, já que não tem direito a nada, não é mesmo?

Com uma nova mulher minha relação com meu pai nunca mais foi a mesma, minha mãe dizia para não ter raiva, mas raiva nem o era o sentimento que eu sentia, era decepção, a imagem que eu tinha dele não era mais a mesma. De qualquer forma, nunca fui uma filha malcriada, sempre o tratei bem, mesmo depois da separação com a minha mãe e nunca deixei transparecer minha decepção com ele. Decepção esta que sumiu após seu falecimento.

Nunca tinha ido a um enterro, a um cemitério e nunca tinha visto alguém morto, sempre fugia dos enterros de parentes, tinha e ainda tenho pavor a velório. Entretanto, infelizmente, tudo na vida tem uma primeira vez. Filha mais velha acaba tenho que resolver muitas coisas, mas minha prima foi como um anjo e resolveu toda a parte burocrática, já que a outra mulher do meu pai resolveu lembrar justamente nessa hora que já ele teve uma esposa, dois filhos e deixou que a gente resolvesse tudo. Bondosa, não?

Nunca na minha vida imaginei ter que escolher um lugar e hora de velório, enterro e até um caixão. Quem quer ter que escolher isso em uma hora de tanta dor? Porém, filhos mais velhos têm suas responsabilidades.
No dia da morte do meu pai eu descobri que ninguém está preparado para morte, ninguém mesmo! As pessoas chegavam e perguntavam se estava tudo bem, o atendente da funerária esboçou um sorridente “boa noite” quando eu cheguei. Se não fosse trágico, teria sido cômico.

Meu pai não estava doente, teve um infarto, não sofreu muito, mas sendo bastante egoísta preferiria que tivesse ficado, mesmo com dor, alguns dias para que eu poder me preparar.

Velório é uma coisa horrível para a família, pediram para marcar no período da tarde para os amigos poderem chegar ao local e foi o que eu fiz, mas assim que o vi no caixão desejei na mesma hora fazer o sepultamento, já que apenas estava prolongamento o inevitável e estendendo a nossa dor.

Recuperar de uma morte eu acho que ninguém se recupera, mas espero poder continuar e que ele esteja bem melhor do que estava antes, afinal ele sempre foi e será o meu pai “bonzinho”.

Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Comentários
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Que belo texto Mi!Fiquei muito emocionada...
Beijos e abraços!!!!

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Obrigada Eldinha, eu não ia escrever nada, mas sabe o blog pra mim é uma terapia, de verdade, então resolvi desabafar e me senti até que aliavada de alguma forma.
Bjs

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Não sei se é porque minha relação com meu pai é caotica, não sei se pq eu tinha inveja das minhas amigas que tinham pai bonzinho enquanto o meu sempre foi essa pessoa dificil de todos os dias... Me emocinei tanto com seu texto Mi, estou a três dias escrevendo e apagando esse comentário...

Deixo nas reticencias o que não sei expressar em palavras e vou com a Elda: "Fiquei muito emocionada..."

Beijos, abraços e tudo o mais...

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Jaci, pai bonzinho pode ser negligência, pai severo pode ser exagero, tudo tem seu lado bom e ruim. De qualuqer forma, tente ficar com ele o máximo que vc puder, infelizmente, a gente não pode ficar com eles para sempre.

Bjs

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