Blogagem Coletiva - A esquina da Morte


O Christian do blog “Escritos Lisérgicos”, em parceria com a Jaci do blog “ Uma Pandora e sua caixa”, está promovendo uma blogagem coletiva com o tema lendas urbanas. 




Achei o tema bastante interessante e como fiz recentemente um conto um tanto sobrenatural, resolvi participar, mas não tenho certeza de que o conto se encaixa no quesito lendas, mas, por ser místico resolvi publicar!

A esquina da Morte

Desde quando me mudei para minha nova casa sempre via um bonito homem, pele jambo, olhos escuros e cabelos ondulados, parado na esquina da minha casa. Sempre achei estranho, mas ele nunca me incomodou, pelo contrário, exceto por hoje. O homem estava parado no mesmo lugar, fumando e olhando pra mim como se estivesse esperando alguém e logo percebi que esse alguém era eu:

- Vamos – disse o estranho homem.

- Para onde? – Respondi

-O que acha que está fazendo aqui?

- Acho que estou......

Era uma boa pergunta, eu não sabia o que estava fazendo na esquina de casa.

- Você precisa ir pra o seu mundo.

- De que mundo você está falando?

- O mundo dos mortos.

De repende me lembrei de que havia sido atropelada, mas não sentia dor alguma e estava com as mesmas roupas de antes, senti um enorme vazio e muito frio, comecei a tremer.

- Está com frio?

-Sim, estou.

- Normal, isso sempre acontece quando estamos longe do calor humano. Como estou de bom humor vou te emprestar meu casaco.

O homem tirou o casaco preto que estava usando e percebi que usava uma camiseta colada no corpo e, meu Deus, que corpo! Céus! Será que estava mesmo morta?

- Vamos caminhando – sugeriu ele.

- Pra onde exatamente eu vou?

- Já disse, não?

-Vou encontrar meus avós?

-Não. Eles estão em outro lugar.

- Por quê?

- Eles eram católicos.

- Eu também!

- Você realmente acha que é católica?

Parei um momento de caminhar e pensei seriamente sobre o assunto. Não era católica, dizia que era porque era difícil explicar que não tinha uma religião.

- Quer dizer que vou para o inferno?

Ele deu uma enorme gargalhada.

- Sempre me perguntam isso! Não. Não vai.

- E para onde eu vou então.

- Para um lugar com pessoas iguais a você, com fé, mas sem religião. Mas não se preocupe, você pode visitar seus avós no mundo deles, dos católicos. Eles, assim como os evangélicos, estão esperando pelo juízo final.

- E quando isso vai ser?

-Não faço nem ideia se é que vai ter.

- Espera um pouco, você está dizendo que o mundo depois da morte está separado por religião?

Não por religião e sim por tipo de fé. Se você acredita que pode reencanar, então você vai reencanar, se você acredita no juízo final então você ficará esperando por tal dia.

- E se eu não acreditar em nenhuma dessas coisas?

- Então você vai para o mundo de fé sem especificação. Um lugar para onde as pessoas com fé, mas sem uma religião especifica, ficam.

- E o que a gente faz lá?

- Vivem de acordo com a própria fé, com as próprias regras.

- Isso não é a Terra?

- É bem parecido, a diferença é que você já está morta, mas pode mudar de fé e ir morar em outros mundos sem problemas. Ultimamente há uma grande movimentação no mundo daqueles que se dizem espírita, muitas pessoas estão querendo viver de novo!

- Então é simples assim? É só querer?

- Não, tem que ter fé para poder mudar.

- E se eu não tiver fé, não acreditar em nada!

- Difícil, se você não acredita não pode ficar em nenhum mundo. Entretanto, não se iluda, muitos dizem não acreditar em nada, mas se surpreendem depois, ao perceberem que sempre acreditaram em algo, não necessariamente em Deus, Jesus, Buda, etc, mas em alguma coisa.

- E você, em que mundo está?

- Em nenhum, sou um Deus da Morte.

- Isso explica sua muita coisa.

- Por exemplo?

- Cara, existem tantos homens querendo um físico desses.

Ele deu novamente uma bela gargalhada, mas me olhou profundamente, de um jeito que me senti completamente nua.

- Vejo que ainda há muita coisa humana nesse corpinho, os hormônios parecem que são os últimos a morrerem.

- Mas morrem mesmo?

- Você vai descobrir.

Com um olhar perdido, o Deus da Morte parou de repente e eu que estava vidrada em sua beleza percebi que havia chegado ao meu destino. Estava no topo de uma colina, dava pra ver toda a cidade do alto. O clima estava ameno, isso me deixou animada.

- O clima é sempre assim?

- Depende das emoções de vocês, às vezes chove bastante por aqui e outras vezes faz bastante sol.

- E nos outros mundos?

- Geralmente é só sol, mas em alguns mundos só existe chuva, frio ou um calor infernal, se é que você me entende. Aqui é o único mundo que o clima muda com mais frequência.

- Gostei! Posso mesmo visitar meus avós?

- Sim, seu líder virá te buscar em breve e irá te orientar.

- Você já vai?

- Sim, preciso fazer mais algumas caminhadas.

- Quando te vejo novamente?

- Não sei, geralmente não marco encontros com meus clientes.

Dessa vez a gargalhada foi minha.

- Você não ficava me esperando na esquina de casa?

- Sim, mas não só você, todos do seu bairro quando morrem passam por mim, mas não se preocupe, qualquer hora eu apareço, quem sabe você muda de mundo?

Olhei para aquela nova cidade e me senti estranhamente em paz.

- Acho difícil, mas quem sabe......


Michele Lima

Blogueira, tradutora, revisora, redatora, professora e pau pra toda obra. contato: michele_silvalima
@yahoo.com.br

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Comentários
24 Comentários
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O tema tem tudo a ver sim com a BC, como disse, desde que fosse algo sobrenatural.
Gostei muito tanto da narrativa, que flui muito bem, do conteúdo e do raciocínio que fez entre o mundo da Espiritualidade. Viajei aqui, imagine se realmente for assim? rs. Este é o dom que tem os reais escritores e não somente os contadores de história, fazer o leitor refletir, "entrar" na estória.
Estes senhor da morte me fez lembrar bastante o trabalho que os exus exercem na umbanda.
Excelente conto Michele.
Não esqueça de adicionar o link lá nos Lisérgicos para poder participar do sorteio e conhecer outros participantes.

=> CLIQUE => Escritos Lisérgicos...

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Não repare nos erros. #dedospsicopatas.

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hahahahaha meus dedos tb são psicopatas!

Olha Christian, meu ego foi lá nas alturas com seu comentário!!!!

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Olá Michele, primeira vez no seu blog, amei tanto que estou ficando, parabéns pelo lindo blog.

Eu amei o conto, amei cada frase e palavras escrita, será que quando morremos vamos para mundos diferentes?
Seria otimo, como acredito e reencarnação, com certeza eu voltaria a vida.
Bom demais seu texto.
Bjs

http://www.artesdosanjos.com.br/2012/10/blogagem-coletiva-lendas-urbanas.html

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Eu adorei o conto já te disse!!! Ficou massa, a gente entra na história e fica até se perguntando como seria comigo, acho que eu ia mudar de crença toda semana até virar amiga de infância de todo mundo ou namorar a Morte rsrs...

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Menina que conto mais lindo de se ler... Concordo com a Pandora, fiquei me perguntando como seria comigo.. já que não frequento nenhuma religião, apenas acredito em Deus e de que preciso manter sempre meu coração limpo.
Pra onde iria Jesus!
Olha eu amei.. li com uma vontade de ver como terminaria..
Sua participação foi maravilhosa viu?

Um beijo carinhoso e um sábado lindo viu?
Sheila

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Bem, o que acontece ninguém sabe, porque nunca ninguém voltou pra contar.... um mistério que sempre nos intriga, não é?
Mas enquanto isso, soltamos nossa imaginação e continuamos vivendo...
Muito bom!

Beijos

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Que bom se depois da morte, pudéssemos escolher para "qual mundo ir".
Gostei muito do conto, estava curiosa pelo final a cada linha.. e me deu pena quando terminou!
Parabéns pela participação na BC.
Abraços

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Olá Michele
Adorei seu conto, prendeu meus olhinhos em cada linha.
Parabéns por sua linda participação.
Um domingo sobrenatural. Beijinhos.

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Olá Michele!

É a primeira que entro no teu espaço, venho do blog Escritos Lisergicos.

Adorei a tua participação na bc, pois o conto está muito bom. A minha ideia da desencarnação, é quase parecida com a tua.

Também estou a participar, eis o link:

http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.pt/2012/10/3-bc-escritos-lisergicos-lendas-urbanas.html

Parabéns!

Dia feliz!

Um beijo,

Cris Henriques

P. S. Estou a seguir o teu blog.

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Jane, muito obrigada! Vou ler o seu agora mesmo!!

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Menina sapeca, querendo a Morte só pra ela! rsrsrsrs

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Sheila e Clara, muito obrigada pelos comentários. Vou ler o conto de todo mundo que está participando do BC tb!!!

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Verinha, obrigada pelo comentário! Cris, pode deixar que vou ler seu conto!!!

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Olá, Michele.
Primeira vez por aqui, também.
Excelente seu conto, fluido, ágil, e leve na medida certa.
Sempre termos medo do desconhecido, não importa de que localidade sejamos ou a idade que tenhamos.
Abraço.

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Seu conto interagiu comigo! :) Enquanto você questionava o seu algoz, eu questionava a mim mesma e o que nos ensinam. Mas quem sabe, nessa de acreditar e se mover, não estamos aqui, nesse exato momento, acreditando... mas não estamos. Será essa vida uma ilusão criada pela nossa imaginação? Muito boa participação!! Beijus,

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Verdade Jacques, sempre teremos medo!!

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Não sei Luma, só me resta acreditar que ela existe, se não a frustração é muito grande!!!

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Gostei demais da criatividade, parabéns.

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Ótimo conto. Me lembrou muito "A mediadora", da Meg Cabot. Acho que por escrever de um modo sutil e divertido sobre a morte. Adorei!

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Acho que a Meg anda me influênciando!! rsrsrsrs

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Olá, eu dificilmente comento, mas eu vi lá no Christian a descrição de seu conto e fiquei "morrendo" para ler tudinho.

Adoro contos assim que mostram as coisas não de modo tenebroso, mas uma visão mais suave da coisa.

Achei por bem não apenas ler e sim dizer o quanto gostei do conto. Ficou lindo.

Beijos!

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Muito Obrigada Iza! Elogios assim me fazem criar coragem para escrever mais!!

Bjs

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